O valor do conhecimento

Vivemos em uma época que, paradoxalmente, consegue exaltar e desprezar o conhecimento ao mesmo tempo. Nunca tivemos tanto acesso à informação, nunca produzimos tanto conhecimento e nunca tivemos ferramentas tão poderosas para pesquisar, estudar e compreender o mundo. Ao mesmo tempo, cresce uma espécie de desprezo pelo estudo, pela reflexão e pela sabedoria. Em alguns ambientes cristãos, estudar é visto com desconfiança, como se o conhecimento pudesse esfriar a fé; em outros, o conhecimento humano é tratado como se fosse capaz de responder a todas as perguntas e solucionar todos os problemas da existência. A Bíblia, entretanto, nos conduz por um caminho muito mais equilibrado. Ela não nos chama à ignorância, mas à sabedoria; não despreza o conhecimento, mas questiona a pretensão de um conhecimento que acredita poder existir independentemente de Deus. O problema não está em conhecer. O problema está em conhecer sem reconhecer Deus.

Quando Paulo afirma que “a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus” (1Co 3.19) e quando adverte os cristãos para que não sejam levados “por filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens” (Cl 2.8), ele não está fazendo uma condenação indiscriminada de todo conhecimento, de toda filosofia ou de toda investigação racional. Paulo não era inimigo da razão, nem das perguntas intelectuais. O que ele confronta é a sabedoria humana que se apresenta como autossuficiente e que pretende compreender a realidade excluindo deliberadamente o próprio Deus. É a sabedoria que se torna “nula em seus próprios raciocínios” porque, embora tenha diante de si a revelação de Deus, recusa-se a reconhecê-lo como Senhor (Rm 1.21). O problema, portanto, não é simplesmente intelectual; é profundamente espiritual. Existe uma diferença entre usar a razão para compreender o mundo criado por Deus e usar a razão para construir um mundo no qual Deus não tenha lugar.

A Escritura, na verdade, atribui enorme valor ao conhecimento e à sabedoria. Isso não poderia ser diferente, porque o próprio Deus é apresentado como sábio e conhecedor de todas as coisas. Ele conhece perfeitamente a si mesmo, conhece sua criação e governa todas as coisas segundo sua perfeita sabedoria. O livro de Provérbios afirma que foi pela sabedoria que o Senhor estabeleceu a terra (Pv 3.19). Paulo, contemplando os caminhos de Deus, exclama: “Ó profundidade da riqueza, da sabedoria e do conhecimento de Deus!” (Rm 11.33). Aos coríntios, ele ensina que o Espírito Santo perscruta até mesmo as profundezas de Deus (1Co 2.10); aos efésios, fala da “multiforme sabedoria de Deus” manifestada por meio da Igreja (Ef 3.10); e aos colossenses apresenta Cristo como aquele “em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento” (Cl 2.3). Portanto, um livro que apresenta Deus dessa maneira jamais poderia ensinar que o conhecimento é inútil. Pelo contrário, a Escritura nos ensina que a sabedoria é um tesouro.

Provérbios chega a afirmar que ela é “mais preciosa do que as joias”, e que nada do que desejamos pode se comparar a ela (Pv 3.15). O conhecimento, portanto, não deve ser tratado como inimigo da fé. O cristão não precisa ter medo de estudar, pesquisar, perguntar, investigar e pensar. Pelo contrário, uma fé que conhece a verdade não deveria temer perguntas honestas. O Deus que criou a mente humana não se sente ameaçado pelo exercício da inteligência que ele mesmo concedeu. A ciência, quando compreendida corretamente, investiga a criação; a filosofia procura compreender questões fundamentais acerca da realidade; a história examina os acontecimentos humanos; e a teologia procura conhecer a Deus a partir de sua revelação. Todas essas atividades podem ser exercidas com seriedade intelectual e, ao mesmo tempo, com humildade diante do Criador. Afinal, toda verdade é verdade de Deus, ainda que nem todo aquele que descobre uma verdade reconheça sua origem última.

É justamente aqui que encontramos o princípio fundamental da perspectiva bíblica: “O temor do Senhor é o princípio do conhecimento” (Pv 1.7). Essa afirmação deveria estar na porta de toda escola, universidade, biblioteca e seminário cristão. O conhecimento começa quando reconhecemos que não somos Deus. O temor do Senhor não significa medo servil, mas reverência, submissão e reconhecimento da autoridade daquele que criou todas as coisas. Quando essa relação é rompida, o conhecimento continua existindo, mas perde sua orientação. O homem continua pesquisando, descobrindo e produzindo, mas começa a interpretar a realidade como se fosse autônoma, como se pudesse explicar o universo sem considerar aquele que o criou. É nesse momento que o conhecimento pode começar a se transformar em orgulho. A inteligência deixa de ser instrumento de serviço e passa a ser instrumento de autonomia. A criatura passa a dizer, em essência: “Eu conhecerei a realidade sem precisar daquele que me criou”.

Esse é um dos grandes problemas da modernidade: não o fato de termos desenvolvido ciência, tecnologia e conhecimento, mas o fato de muitas vezes termos transformado essas conquistas em uma espécie de nova religião. A ciência é extremamente poderosa para responder a determinadas perguntas sobre o funcionamento da realidade, mas ela não foi criada para responder sozinha a todas as perguntas humanas. Ela pode investigar como determinadas coisas acontecem, mas não pode, por seus próprios métodos, determinar o sentido último da existência. Pode descrever processos biológicos, mas não consegue, apenas por meio de suas ferramentas, responder por que a vida possui valor moral. Pode explicar mecanismos neurológicos, mas não consegue reduzir a experiência humana inteira àquilo que pode ser medido no cérebro. Pode aumentar nossa capacidade de produzir e transformar o mundo, mas não pode nos dizer, por si mesma, para que devemos usar esse poder. Conhecimento sobre o mundo não é automaticamente sabedoria para viver no mundo.

Em primeiro lugar, precisamos reconhecer que o conhecimento humano é necessariamente limitado. Há pessoas que dedicam toda a vida a uma determinada área do saber e conseguem alcançar um nível extraordinário de especialização. Isso é uma coisa admirável e deve ser valorizada. Mas, precisamente por causa dessa especialização, ninguém conhece tudo. O especialista sabe muito sobre uma determinada parte da realidade, mas continua dependente de outros especialistas para compreender outras partes. A pessoa que passa décadas estudando medicina não se torna automaticamente especialista em filosofia; o físico não se torna necessariamente historiador; o teólogo não se torna, apenas por ser teólogo, engenheiro ou economista. Somos criaturas finitas e nosso conhecimento é fragmentário. Isso não diminui o valor do conhecimento; pelo contrário, deveria produzir humildade intelectual. Quanto mais aprendemos, mais percebemos quanto ainda não sabemos.

Essa limitação deveria nos proteger de uma das grandes tentações da inteligência: a ilusão de que finalmente conseguimos decifrar completamente o mistério da existência. Ao longo da história, diferentes sistemas filosóficos e diferentes projetos intelectuais alimentaram a esperança de que o homem, por meio da razão, conseguiria finalmente resolver os grandes enigmas do universo. Mas uma descoberta frequentemente abre novas perguntas. Uma resposta produz outras questões. Aquilo que parecia completamente explicado revela uma complexidade ainda maior. Quanto mais conhecemos o universo, mais percebemos sua extraordinária profundidade. Quanto mais estudamos o ser humano, mais percebemos sua complexidade. Quanto mais investigamos a mente, a matéria, a vida e a própria história, mais somos lembrados de que somos criaturas que caminham em meio a mistérios que ultrapassam nossa capacidade de compreensão. O conhecimento humano é maravilhoso, mas ele nunca será absoluto.

Em segundo lugar, precisamos compreender que conhecimento não é sinônimo de sabedoria. Essa distinção é fundamental. Podemos acumular informações sem nos tornarmos pessoas sábias. Podemos conhecer muitos fatos e tomar decisões terrivelmente equivocadas. Podemos dominar tecnologias sofisticadas e continuar moralmente imaturos. Podemos compreender como construir armas cada vez mais poderosas sem aprender a amar o próximo. Podemos ter inteligência suficiente para manipular pessoas, mercados e sistemas e, ainda assim, não possuir caráter suficiente para saber quando não devemos fazê-lo. O conhecimento responde, em grande medida, à pergunta “o que é?” e “como funciona?”. A sabedoria acrescenta uma pergunta fundamental: “Como devo viver diante disso?”

É por isso que o conhecimento precisa estar ligado à virtude. Uma sociedade pode se tornar extraordinariamente desenvolvida tecnologicamente e, ao mesmo tempo, profundamente pobre moralmente. A inteligência nas mãos de um coração corrompido pode produzir coisas extraordinárias para o bem, mas também pode produzir males extraordinários. O mesmo conhecimento que pode ser usado para salvar vidas pode ser utilizado para destruí-las. A mesma tecnologia que pode aproximar pessoas pode ser usada para manipular, explorar e controlar. A mesma capacidade científica que pode aliviar o sofrimento pode ser empregada para fins profundamente perversos. O problema, portanto, não está apenas no quanto sabemos, mas no que fazemos com aquilo que sabemos.

Paulo expressa essa verdade de maneira extraordinariamente profunda quando escreve aos coríntios: “Ainda que eu tenha o dom de profetizar e conheça todos os mistérios e toda a ciência; ainda que eu tenha tamanha fé a ponto de transportar montes, se não tiver amor, nada serei” (1Co 13.2). É difícil imaginar uma afirmação mais contundente sobre os limites do conhecimento. Paulo coloca diante de nós uma pessoa que possui conhecimento, dons espirituais e fé extraordinária. Ainda assim, sem amor, ela é espiritualmente vazia. Isso significa que podemos estar intelectualmente cheios e espiritualmente vazios. Podemos ter uma cabeça extraordinariamente informada e um coração profundamente deformado. Podemos saber muito sobre Deus e, paradoxalmente, saber pouco sobre como viver diante dele.

Talvez essa seja uma advertência especialmente importante para nós, cristãos. Existe o perigo de transformarmos a teologia em uma coleção de informações, como se conhecer doutrinas fosse o mesmo que conhecer a Deus. Podemos saber explicar a Trindade e continuar vivendo de maneira profundamente distante do Deus triúno. Podemos compreender a doutrina da graça e continuar sendo pessoas sem graça. Podemos defender a soberania de Deus e viver dominados pela ansiedade. Podemos conhecer a doutrina da providência e continuar tentando controlar tudo. Podemos discutir longamente sobre dons espirituais, batismo no Espírito, predestinação, escatologia ou eclesiologia e, ao mesmo tempo, falhar em amar o irmão que está sentado ao nosso lado no banco da igreja. Conhecimento teológico que não produz transformação espiritual pode se tornar apenas orgulho religioso com vocabulário sofisticado.

Isso não significa que devamos abandonar o estudo teológico para preservar a espiritualidade. É justamente o contrário. Precisamos estudar mais, mas estudar de maneira correta. Precisamos conhecer as Escrituras profundamente, compreender a história da Igreja, dialogar com a filosofia, conhecer as grandes tradições teológicas, estudar a cultura em que vivemos e desenvolver uma mente capaz de discernir os erros do nosso tempo. A Igreja não precisa escolher entre profundidade intelectual e fervor espiritual. Precisamos de ambos. Precisamos de uma fé que pense e de uma inteligência que adore. Precisamos de cristãos que possam entrar em uma universidade sem abandonar sua fé e entrar em uma igreja sem abandonar sua capacidade de pensar. Precisamos recuperar uma visão cristã do conhecimento na qual a mente e o coração caminhem juntos diante de Deus.

No fim das contas, todo verdadeiro conhecimento deveria nos conduzir à humildade. Quanto mais conhecemos a grandeza da criação, mais admiramos o Criador. Quanto mais percebemos a complexidade da vida, mais reconhecemos nossa limitação. Quanto mais estudamos a história humana, mais percebemos nossa necessidade de redenção. Quanto mais conhecemos a nós mesmos, mais percebemos que precisamos da graça. E quanto mais conhecemos Cristo, mais entendemos que nele estão escondidos “todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento” (Cl 2.3). O objetivo final do conhecimento cristão não é simplesmente tornar-nos pessoas intelectualmente superiores; é tornar-nos pessoas mais sábias, mais humildes, mais santas e mais capazes de amar.

Por isso, não devemos ter medo do conhecimento. Devemos, sim, ter medo do conhecimento sem temor de Deus. Não devemos temer a ciência; devemos temer uma ciência que se transforma em arrogância e acredita possuir a palavra final sobre todas as coisas. Não devemos desprezar a filosofia; devemos discernir seus pressupostos e reconhecer seus limites. Não devemos fugir da razão; devemos submetê-la à verdade de Deus. A fé cristã não exige que desliguemos a mente quando entramos na igreja. Pelo contrário, Jesus nos chama a amar a Deus também com o nosso entendimento (Mt 22.37). Pensar é parte da adoração. Estudar pode ser uma forma de gratidão. Conhecer pode ser uma maneira de contemplar a obra do Criador.

O verdadeiro problema nunca foi o conhecimento. O verdadeiro problema é o orgulho de quem imagina que pode conhecer todas as coisas sem reconhecer aquele que conhece todas as coisas. A sabedoria começa quando nos ajoelhamos diante do Deus que criou a mente que usamos para pensar. E talvez essa seja a grande lição que precisamos recuperar em nossos dias: não precisamos escolher entre fé e conhecimento; precisamos aprender a colocar o conhecimento debaixo do senhorio de Cristo.

Porque, no fim, a pergunta mais importante não é simplesmente “quanto você sabe?”. A pergunta é: “O que o conhecimento fez com você?”

Se o conhecimento aumentou nossa arrogância, aprendemos pouco.

Se aumentou nossa capacidade de amar, servir e discernir, aprendemos alguma coisa.

Mas se, ao conhecermos mais, também aprendemos a dizer com Paulo: “Ó profundidade da riqueza, da sabedoria e do conhecimento de Deus!” (Rm 11.33), então começamos a compreender o verdadeiro valor do conhecimento.

Conhecer é bom. Conhecer a Deus é melhor. E conhecer mais de Deus deve transformar a maneira como conhecemos, pensamos e vivemos todas as outras coisas.


Soli Deo gloria


Continue lendo