Recentemente recebi essa pergunta de cunho escatológico. Nela se quer saber sobre uma realidade futura. Diante disso, devemos ter a humildade de não sermos excessivamente dogmáticos em assuntos que a Bíblia não permite muito espaço de formulação. Mas creio que a resposta desse questionamento está em 1 Coríntios 13.12, quando o apóstolo Paulo diz: “Porque, agora, vemos por espelho em enigma; mas, então, veremos face a face; agora, conheço em parte, mas, então, conhecerei como também sou conhecido” (grifos meus).
Jesus é a única pessoa da Santíssima Trindade com um corpo que, embora glorificado, possui materialidade (Jo 20.27). Deus, o Pai, não possui corpo material (Jo 4.24). O Espírito Santo, igualmente, não possui matéria, embora, no batismo de Jesus, tenha se manifestado em “forma corpórea” (gr. sōmatikō eidei), ou seja, em forma corporal visível à semelhança de uma pomba (Lc 3.22). Diante da realidade imaterial do Pai e do Espírito Santo, é humanamente impossível contemplá-los. Ninguém pode ver Deus em Sua plenitude (Jo 1.18; cf. Êx 33.20). Tanto Moisés como o profeta Isaías viram apenas lampejos da glória divina – as “costas de Deus” (Êx 33.21-23; Is 6.1).
O texto paulino já mencionado (1 Co 13.12) mostra uma realidade escatológica onde, no futuro, teremos o pleno conhecimento de Deus. O apóstolo usa a expressão idiomática “face a face” que traz o “sentido de uma comunicação pessoal direta”1, como podemos ver em Gênesis 32.30. É bem provável que um conhecimento tão íntimo envolva algum tipo de visão da Trindade. Hoje, a imagem que temos de Deus é indireta e mediada (cf. 1 Tm 2.5). Não se trata, obviamente, de uma imagem distorcida, todavia, a imagem que o crente contempla neste mundo ainda é incompleta. Este texto, como os leitores já sabem, está dentro de uma discussão maior sobre os dons espirituais (1 Co 12-14). O apóstolo dos gentios, ao sinalizar que o conhecimento pleno será apenas uma realidade futura, também indica que mesmo o crente mais “carismático não atinge a visão completa de Deus neste mundo”2.
O apóstolo João nos informa sobre o céu como uma cidade na qual não é necessário nem do “sol nem da lua para lhe dar claridade, pois a glória de Deus a ilumina, e o Cordeiro é a sua lâmpada” (Ap 21.22 NAA). O texto parece indicar que é impossível dissociar as pessoas da Trindade nessa visão iluminadora. Sendo a Trindade um só Deus em três pessoas não é difícil afirmar que nenhum mistério existirá sobre o nosso Deus trino nos novos céus e na nova terra.
Por Gutierres Fernandes Siqueira